Curvatura peniana: quando a condição pode indicar doença de Peyronie

Uma das frases que mais escuto no consultório é: “Doutor, meu pênis sempre teve uma leve curvatura, mas agora parece que está diferente.” Essa mudança é o que realmente chama a minha atenção.

Ter uma curvatura discreta não significa, por si só, que existe um problema. Muitos homens nasceram com o pênis levemente inclinado para cima, para baixo ou para um dos lados e nunca tiveram dor, dificuldade nas relações sexuais ou necessidade de tratamento.

A situação muda quando essa curvatura aparece ao longo da vida ou começa a aumentar com o passar dos meses. Nesses casos, uma das possibilidades que precisamos investigar é a doença de Peyronie.

A diferença mais importante: a curvatura sempre esteve ali ou surgiu recentemente?

Essa costuma ser a primeira pergunta que faço durante a consulta. Quando a curvatura existe desde a adolescência e permanece praticamente igual ao longo dos anos, geralmente estamos diante de uma característica anatômica.

Agora, quando o paciente percebe que o pênis começou a entortar durante a ereção, perdeu comprimento, mudou de formato ou passou a apresentar dor, o cenário é diferente e merece investigação.

Mais do que medir o grau da curvatura, procuro entender quando essa mudança começou e como ela está afetando a vida sexual e a qualidade de vida.

O que acontece na doença de Peyronie?

Costumo explicar de uma forma simples.

Imagine que uma pequena cicatriz se forma no tecido que reveste o pênis. Essa cicatriz, chamada de placa de fibrose, é menos elástica do que o tecido normal.

Quando ocorre a ereção, a parte saudável se expande normalmente, enquanto a região da fibrose permanece mais rígida. É justamente essa diferença que faz o pênis se curvar.

Dependendo da localização da placa, a curvatura pode ser para cima, para baixo ou para um dos lados. Em alguns casos, também pode haver afinamento do pênis ou uma deformidade conhecida como “ampulheta”.

Os primeiros sinais costumam ser sutis

Nem sempre a doença começa com uma curvatura importante.

Muitos pacientes relatam primeiro uma sensação de desconforto durante a ereção ou percebem uma pequena mudança no formato do pênis. Outros notam um endurecimento localizado antes mesmo de enxergar qualquer deformidade.

Os sinais que merecem atenção incluem:

  1. Curvatura que surgiu recentemente;
  2. Aumento progressivo da curvatura;
  3. Dor durante a ereção;
  4. Endurecimento ou caroço palpável no pênis;
  5. Perda de comprimento ou alteração do formato;
  6. Dificuldade para a penetração.

Esses sintomas não confirmam, sozinhos, o diagnóstico, mas indicam que vale a pena procurar avaliação especializada.

A doença sempre piora?

Não. E esse é um ponto importante.

A doença de Peyronie costuma passar por duas fases. Na fase inicial, chamada de fase ativa, podem surgir dor e aumento gradual da curvatura. Depois, a doença tende a entrar em uma fase estável, quando a deformidade deixa de evoluir.

Nem todos os pacientes desenvolvem curvaturas graves. Alguns apresentam alterações discretas durante toda a evolução da doença.

Por isso, cada caso precisa ser acompanhado individualmente.

A doença de Peyronie causa impotência?

Nem sempre. Essa é uma das maiores preocupações de quem recebe esse diagnóstico.

Alguns homens mantêm ereções completamente satisfatórias. Outros desenvolvem disfunção erétil porque a circulação sanguínea também pode ser afetada ou porque a ansiedade provocada pela própria doença interfere na resposta sexual.

Ou seja, a doença de Peyronie e a disfunção erétil podem estar relacionadas, mas uma não significa obrigatoriamente a outra.

Como faço o diagnóstico?

A consulta começa com uma conversa detalhada. Quero entender quando a curvatura apareceu, se houve piora ao longo do tempo, se existe dor, como está a qualidade das ereções e de que forma isso interfere na vida do paciente.

Depois realizo o exame físico para identificar a presença de placas de fibrose.

Em algumas situações, solicito um ultrassom peniano com ereção farmacológica. Esse exame ajuda a avaliar a localização da placa, o grau da curvatura e a circulação sanguínea, informações importantes para definir a melhor estratégia de tratamento.

A cirurgia é sempre necessária?

Não. Esse talvez seja o maior mito sobre a doença de Peyronie.

A indicação do tratamento depende de vários fatores: a fase da doença, a intensidade da curvatura, a qualidade da ereção e o impacto que a deformidade provoca na vida sexual.

Em alguns pacientes, o acompanhamento clínico é suficiente. Em outros, podem ser indicadas terapias específicas durante a fase ativa.

Quando a curvatura está estabilizada e impede ou dificulta significativamente a relação sexual, a cirurgia pode ser a alternativa mais eficaz.

Não existe uma única solução para todos os casos.

Um aspecto que merece mais atenção

Ao longo da minha prática, percebo que muitos homens sofrem em silêncio.

Alguns acreditam que a curvatura faz parte do envelhecimento. Outros sentem vergonha de conversar sobre o assunto ou imaginam que não existe tratamento.

Enquanto isso, deixam de iniciar relacionamentos, evitam a intimidade ou convivem com inseguranças que poderiam ser esclarecidas em uma consulta.

Por isso, sempre reforço: a doença de Peyronie não deve ser encarada apenas como uma alteração no formato do pênis. Ela pode afetar autoestima, confiança e qualidade de vida, e todos esses aspectos também fazem parte do tratamento.

Quando vale a pena procurar um urologista?

Recomendo uma avaliação sempre que você perceber que o formato do pênis mudou, principalmente se essa alteração surgiu recentemente ou continua evoluindo.

Também é importante procurar ajuda caso exista dor durante a ereção, dificuldade para a penetração, perda importante de comprimento ou a sensação de uma placa endurecida no pênis.

Na minha experiência, o erro mais comum é esperar que a curvatura desapareça sozinha. Embora isso possa acontecer em poucos casos, o mais prudente é entender a causa da alteração antes de concluir que ela faz parte do envelhecimento ou que não tem solução.

Nem toda curvatura peniana indica doença. Em muitos homens, ela é apenas uma característica anatômica presente desde sempre.

Por outro lado, quando a curvatura aparece ao longo da vida, aumenta progressivamente ou começa a interferir na função sexual, é importante investigar.

O diagnóstico precoce permite compreender o que está acontecendo e discutir, de forma individualizada, as opções de tratamento mais adequadas para preservar a função sexual, o bem-estar e a qualidade de vida.

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