Vivemos uma época curiosa. Nunca tivemos acesso a tanta informação sobre saúde, mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil saber em quem confiar.
Recentemente, li o Edelman Trust Barometer 2026, um dos estudos mais respeitados do mundo quando o assunto é confiança. E uma das principais conclusões me chamou atenção: as pessoas estão cada vez mais desconfiadas de quem pensa, vive ou enxerga o mundo de forma diferente delas.
Segundo o relatório, 7 em cada 10 brasileiros não estão dispostos ou hesitam em confiar em alguém que consideram diferente de si. Esse fenômeno foi chamado de “mentalidade insular” – uma tendência de confiar apenas em quem pertence ao nosso círculo mais próximo e desconfiar de tudo que vem de fora.
Pode parecer um tema distante da medicina, mas, na prática, ele está diretamente ligado à saúde.
A confiança sempre foi o principal tratamento
Como urologista, aprendi que nenhum exame, tecnologia ou protocolo substitui uma relação de confiança entre médico e paciente.
Antes de qualquer diagnóstico, existe uma conversa, de qualquer cirurgia, existe uma decisão e antes de qualquer tratamento, existe a necessidade de acreditar que alguém está realmente comprometido com seu bem-estar.
Quando a confiança diminui, surgem dúvidas, inseguranças e atrasos em cuidados que poderiam fazer toda a diferença.
Muitas vezes, vejo pacientes chegarem ao consultório carregando informações contraditórias encontradas na internet, opiniões de conhecidos e receios alimentados por experiências negativas compartilhadas nas redes sociais.
Não há nada de errado em buscar informação, pelo contrário. O desafio é que, em um ambiente onde todos falam ao mesmo tempo, identificar fontes confiáveis se torna cada vez mais difícil.
O que a pesquisa mostra
O Edelman Trust Barometer aponta que a confiança nas instituições continua sendo um dos grandes desafios da sociedade atual.
No Brasil, apenas empresas e empregadores aparecem na zona considerada de confiança, enquanto governo, mídia e outras instituições ainda enfrentam dificuldades para conquistar credibilidade.
Mais preocupante é o crescimento do sentimento de ressentimento social. O estudo mostra que 59% dos brasileiros apresentam níveis moderados ou altos de ressentimento, motivados pela percepção de que o sistema favorece poucos e deixa muitas pessoas para trás.
Quando as pessoas passam a desconfiar das instituições, elas também passam a questionar especialistas, evidências científicas e recomendações profissionais. E é justamente aí que a área da saúde sente os impactos de forma mais intensa.
O paciente não procura apenas respostas, mas segurança
Na medicina, raramente existe uma solução instantânea. Existem investigações, hipóteses, riscos, benefícios e decisões compartilhadas. Por isso, acredito que o papel do médico moderno vai muito além de prescrever medicamentos ou solicitar exames.
Precisamos explicar, ouvir e traduzir informações complexas para uma linguagem acessível.
O próprio relatório destaca um conceito interessante chamado “brokering de confiança”, que consiste em criar pontes entre grupos diferentes, ajudando pessoas a compreenderem umas às outras em vez de tentar mudá-las.
Quando penso na relação médico-paciente, vejo exatamente isso. Não estamos ali para impor decisões, estamos ali para construir entendimento.
A saúde precisa de diálogo, não de polarização
Talvez uma das mensagens mais importantes do Edelman Trust 2026 seja que a confiança cresce quando existe abertura para ouvir.
O estudo mostra que as pessoas tendem a confiar em quem demonstra transparência, mente aberta e respeito às diferenças. Essa é uma lição valiosa para a medicina.
Nem todo paciente chega ao consultório com as mesmas experiências, os mesmos conhecimentos ou os mesmos medos. Cada pessoa traz uma história diferente e quanto mais conseguimos compreender essa história, maior a chance de construirmos uma relação sólida e eficaz.
O futuro da saúde passa pela confiança
Quando falamos sobre inovação, inteligência artificial, telemedicina e novos tratamentos, é natural imaginar que a tecnologia será a protagonista da próxima década.
Eu penso diferente. A tecnologia continuará avançando, sem dúvida, mas o verdadeiro diferencial continuará sendo humano: o profissional que escuta, que explica e que demonstra coerência entre discurso e prática. Porque, no fim das contas, confiança não é construída por algoritmos, ela é construída por pessoas.
E talvez essa seja a maior mensagem do Edelman Trust 2026 para a área da saúde: em um mundo cada vez mais dividido e desconfiado, aqueles que conseguirem criar conexões genuínas serão os que realmente farão a diferença.
Na medicina, sempre foi assim e acredito que continuará sendo.
Para mais informações de confiança na área da saúde, me siga nas redes sociais. Para consultas, entre em contato!